Entrevista do diretor Marcos Jorge
Para a Primeiro Plano, assessoria de imprensa
Fevereiro 2008
1- Quando foi que você percebeu que “ESTÔMAGO” acabaria se tornando seu filme de estréia na direção? O que mais o seduziu na história? O roteiro do “ESTÔMAGO” nasceu de um modo interessante e que vale a pena ser contado. Há quatro anos, respondendo a um convite para a estréia de um curta meu em São Paulo, o escritor Lusa Silvestre me mandou três contos inéditos, todos centrados no argumento comida. Um deles me chamou logo a atenção, narrava a história de um homem que aumentava seu prestígio numa prisão cozinhando para seus companheiros de cela. Gostei muito do conto e sugeri ao Lusa que o adaptássemos. Mas como o conto era curto e insuficiente para embasar um longa, era necessário inventar mais coisas. E assim, juntos, fomos criando toda uma história para o protagonista “antes” de ir para a cadeia, e o roteiro foi sendo escrito. Logo no início desta fase percebi que se tratava de uma história universal, compreensível a todo tipo de pessoa, que mistura poder, sexo e culinária de maneira visceral e orgânica. Mergulhei de cabeça na elaboração do roteiro, com enorme dedicação e imenso prazer (foi uma das melhores fases de minha vida). Por sorte, outros logo também reconheceram o valor da história e vencemos o Edital de Produção de Filmes de BO do Ministério da Cultura, o que tornou possível o filme.
2 - Da conceituação à produção, quais foram os desafios que você encontrou para fazer seu primeiro filme como diretor? Fazer cinema é uma tarefa complexa, que envolve muitos recursos e pessoas, e comporta muitos desafios. Acho que vale a pena destacar alguns deles. Antes de mais nada, para fazer “ESTÔMAGO” a produtora Cláudia da Natividade conseguiu atuar um famoso acordo de co-produção entre o Brasil e a Itália, que existia desde 1974 e nunca tinha sido plenamente utilizado. Com muito trabalho e paciência ela decifrou os percursos previstos na lei e conseguiu que os órgãos brasileiros e italianos aprovassem a co-produção do filme. É graças a este trabalho que o “ESTÔMAGO” pôde ser finalizado na Europa.
Outro grande desafio foi rodar o “ESTÔMAGO” com um milhão de reais, que é o valor do Prêmio de Produção de Filmes de Baixo Orçamento do Ministério da Cultura. Filmando em película, como filmamos, em cinco semanas, com uma equipe grande, um filme relativamente complexo e com muitas necessidades de produção, não o teríamos feito com esta verba se tivéssemos optado por filmá-lo em São Paulo. Movendo nossa produção para Curitiba, no entanto, conseguimos controlar muito melhor os custos e otimizar os recursos, contando com o apoio do Estado e da Prefeitura, que nos facilitaram o acesso a muitas das locações.
Mas talvez o maior desafio superado tenha sido não cair nos clichês que permeiam a história: os presos oprimidos, a prostituta deprimida, o italiano melodramático, a comida pasteurizada etc. Ora, para poder fugir disso, desde o começo imaginei os personagens como pessoas multifacetadas, e os ambientes como ambientes realistas. Assim como a comida mostrada no filme é apetitosa mesmo sendo feita em condições higiênicas tremendas, os personagens do filme também têm qualidades e defeitos evidentes. E gostamos deles apesar disso, ou justamente por isso.
3 - Um dos pontos mais fortes do filme é a precisão com que a trama é conduzida. Por quantos tratamentos o roteiro passou até chegar à forma final? Aliás, qual a receita de um bom roteiro? A receita de um bom roteiro é como a receita de um bom prato: você pode listar os ingredientes, pode indicar os modos do preparo, pode até contar os segredos do cozinheiro, mas se quem for fazer o prato não tiver “mão boa para a cozinha”, o prato não vai ficar bom. Então, não sei contar muito bem a receita do roteiro do “ESTÔMAGO”. Em sua essência, ele foi escrito pelo Lusa Silvestre e por mim, sendo o Lusa o responsável pela maior parte dos diálogos, e eu pela estruturação de grande parte das cenas. A Cláudia da Natividade encontrou a chave para acabar o filme, o que, num filme como o “ESTÔMAGO”, é muita coisa.
A primeira versão do roteiro foi escrita muito rapidamente, em cerca de 30 dias, pois tínhamos uma data final para participarmos do concurso. E nela já estavam presentes todos os elementos fundamentais que acabariam no filme. Mas, depois disso, o roteiro teve muitas revisões, muitas mesmo, mais ou menos umas dez. Nunca deixamos de trabalhar nele. As fases mais significativas foram durante a pré-produção, em que recolhemos as sugestões dos colaboradores mais próximos do filme; durante os ensaios, em que os atores deram muitas idéias, especialmente nos diálogos; durante a própria filmagem, pois cheguei a escrever uma cena numa noite e filmá-la no dia seguinte; durante a montagem; e até durante a finalização do som, reescrevemos os offs do Nonato. Um trabalhão, mas valeu a pena.
4 - Do seu ponto de vista, que elementos de “ESTÔMAGO” dizem mais ao público brasileiro e mais ao italiano? Foi complicado conjugar as exigências dos dois países, ou você acredita que o filme tem um caráter universal (até por ser uma fábula, com muitos toques existencialistas)? O “ESTÔMAGO” é sim uma co-produção brasileiro-italiana (veja bem, brasileiro-italiana, e não ítalo-brasileira), mas foi escrito, dirigido e realizado por brasileiros. Não precisei pensar o filme em função da co-produção, pois desde o início o personagem do Giovanni já era pensado como italiano. As muitas ironias que se fazem, no decorrer do filme, ao caráter dos italianos, não estão ali em função da co-produção, mas sim pelo seu caráter intrinsecamente engraçado. Morei na Itália mais de dez anos, e posso dizer conhecer bem os italianos, mas seria ambição demais da minha parte afirmar que conheço os gostos do público de cinema, portanto não sei ainda dizer se o filme vai fazer sucesso por lá. Mas, pelas primeiras reações que venho colecionando pelos festivais internacionais em que “ESTÔMAGO” vem sendo apresentado, trata-se de um filme que agrada bastante. O público de Roterdam adorou o filme, elegendo-o segundo colocado, entre 200 longas, em sua preferência. O público de Berlim esgotou os ingressos dias antes da projeção, apesar de serem os ingressos mais caros da Berlinale (49 euros pois incluíam um jantar logo depois), e riu até mesmo nos créditos finais (não estou exagerando, quem estava lá, viu). E já vendemos o filme para uma série interessante de países, que inclui Argentina, Israel, Espanha, Holanda, Canadá e Grécia, entre outros. Acho que o filme tem, sim, um caráter universal. Mas ele não foi buscado, ele aconteceu naturalmente, acredito que, pela verdade com que é narrada a história.
5 - A metáfora da carne, explícita na brutalidade com que os personagens (em especial o Raimundo e a Íria) são tratados, nos faz pensar em uma sociedade como um grande moedor de gente. A gastronomia entra aí como uma metáfora da humanização – de trazer um novo tempero à vida? Linda a metáfora contida nesta pergunta, encontro o “ESTÔMAGO” perfeitamente descrito nela. Realmente, a sociedade brasileira pode muito bem ser descrita como um moedor de gente, especialmente da gente simples, da gente pobre. “ESTÔMAGO” descreve este sistema injusto através de dois grandes temas: as relações de trabalho e o sistema carcerário. Nonato chega na cidade e imediatamente é preso. Não na cadeia, mas no quartinho dos fundos do boteco do Zulmiro. E para ter o privilégio de ficar lá, entre ratos e baratas, deve trabalhar como um escravo. Sem benefícios. Só quando vai trabalhar para o Giovanni ele ganha um pouquinho mais de liberdade. Para Nonato, o talento para a cozinha (que ele descobre na prática, tendo que cozinhar para comer) é sua única arma de liberdade, de afirmação, de sobrevivência. Não é à toa que, no filme, no instante em que Nonato começa a cozinhar, aparece a segunda parte dos créditos. Ali, naquele instante, sua vida reinicia e, portanto, reinicia também o filme, que a partir daquele ponto muda de estilo, ou melhor, incorpora um novo estilo, que é mais bonito que o realismo cru com que a história vinha sendo contada até ali. E cada vez que a magia culinária de Nonato acontece, o filme muda para um registro mais doce, a música se suaviza, o mundo de Nonato e de seus companheiros fica muito melhor.
Um fato muito importante a ser destacado sobre “ESTÔMAGO” é que, apesar de sua aparência fabulosa, se trata de um filme bastante realista, especialmente no que se refere à vida dos protagonistas. A história é completamente inventada, mas poderia ter acontecido.
6 - Como foi a preparação para filmar no presídio? Que especificidades você procurava no ambiente carcerário a ser filmado? Posso dizer que tivemos muita sorte com as locações do “ESTÔMAGO”. Seguindo nossa proposta de realismo na realização do filme, “ESTÔMAGO” foi inteiramente filmado em locações, sendo que a direção de arte apenas interveio no sentido de enriquecer os ambientes encontrados. O Bar do Zulmiro efetivamente existe, encontra-se na região central de Curitiba, apelidada de “cracolândia”. A cozinha do restaurante Boccaccio é a cozinha de um dos mais antigos restaurantes da cidade, assim como são verdadeiros a boate, a pensão da Íria etc. Agora, nosso maior golpe de sorte foi o presídio. Inicialmente, pensávamos em construir a cela em estúdio e fazermos num presídio real somente as cenas complementares do corredor, o que poderia ser viabilizado numa diária de filmagem. Com este objetivo visitamos os principais presídios de Curitiba e concentramos nossa atenção no Presídio do Ahú, prisão mais antiga da cidade, construída há mais de 100 anos. Já negociáramos um modo de filmarmos lá com a prisão em funcionamento quando fomos advertidos que, se esperássemos um pouco, o Presídio seria desativado e poderíamos filmar lá dentro o tempo que quiséssemos. Assim fizemos. O presídio foi desativado e os presos removidos para outra unidade, fora da cidade. Os prisioneiros foram removidos somente com a roupa do corpo, deixando no presídio “todos” os objetos pessoais. Então foi só fazermos, dentro do presídio, uma cela com duas paredes falsas (que removíamos quando necessário), e utilizarmos, como objetos de cena, objetos reais deixados pelos presidiários. E para garantir o realismo total, chamamos aos ensaios o nosso consultor de comportamento carcerário, o Luís Mendes, para ajudar-nos em todos os setores.
Então, nossa estada na prisão foi de mais de duas semanas de filmagem. E não foram semanas fáceis pois algo, lá dentro, deixava sempre claro, para nós todos que estávamos trabalhando, que aquele era um lugar de sofrimento.
7 - Você contou com a consultoria do ex-presidiário Luiz Mendes Jr. para elaborar as cenas que se passam na penitenciária. Apesar do passado trágico, Mendes saiu da cadeia como escritor e cronista. Você acredita que há esperanças para o sistema penitenciário brasileiro? O Luiz Mendes saiu da cadeia como escritor por exclusivo mérito próprio, através de um esforço incrível realizado solitariamente, e não como resultado da ação do sistema. Infelizmente, pelo que vi e li durante a fase de pesquisa para fazer o filme, o sistema penitenciário brasileiro não recupera ninguém, muito pelo contrário. O sistema é terrivelmente eficaz em punir, mas não faz aquilo para o qual foi pensado, que é recuperar o indivíduo para a vida em sociedade.
8 - “ESTÔMAGO” dá a impressão de ter sido o produto de uma cozinha muito bem orquestrada. Como foi ser o chef dessa empreitada? E como você definiria o gosto desse prato que acabou sendo o filme? Acredito que houve mesmo muita sintonia na equipe que realizou o “ESTÔMAGO”. E como sugere sua pergunta, existe uma grande semelhança entre cozinhar e fazer cinema. Assim como o cozinheiro, o diretor também mistura elementos heterogêneos, procurando a harmonia como resultado final de sua atuação.
Foi um privilégio ser o chef da cozinha que preparou o “ESTÔMAGO”. Além dos ingredientes, excelentes, devo dizer que a equipe que os preparou foi sensacional. Basta conferir a fotografia linda e poderosa do Toca Seabra, a música do Giovanni Venosta, (inspirada nos faroestes italianos da década de 60), a montagem milimétrica do Luca Alverdi (que ficou trancado três meses num hotel ajustando os fotogramas com paciência de ourives).
Já para definir o tipo de prato que é o “ESTÔMAGO” é preciso pensar um pouco. Certamente trata-se de um prato forte, de gosto marcado, agridoce em alguns momentos, salgado em outros, e que termina deixando um gosto amargo na boca.
9 - Ao juntar João Miguel, Babu Santana e Paulo Miklos, “ESTÔMAGO” acaba contando com três das grandes caras do cinema brasileiro dos anos 2000. Qual a importância desse elenco? Acha que Fabiula Nascimento é a próxima a entrar nesse rol de estrelas? O processo de escolha e formação do elenco do “ESTÔMAGO” foi lento e trabalhoso. A seleção de cada ator teve uma história e um percurso diferente. Para a personagem da “Íria”, por exemplo, fizemos testes em São Paulo, Rio e Curitiba, testando mais de uma centena de atrizes. Demorei em decidir a confiar a uma estreante um papel tão importante, mas a Fabiula Nascimento terminou por me convencer, pela presença, pelo talento e pela absoluta dedicação ao trabalho e à personagem. Tenho confiança de que se ela souber gerir bem sua carreira, vai se tornar uma estrela.
O nome do Babu Santana surgiu cedo, a partir do excelente trabalho dele no filme “Quase Dois Irmãos”, da Lúcia Murat, mas ele teve que competir, em testes e entrevistas, com atores extraordinários como o Flávio Bauraqui e o Leandro Firmino, só para citar dois exemplos.
Para o personagem do “Giovanni” inicialmente pensamos num ator famoso na Itália, o Diego Abantantuono, mas foi ficando claro que para que o filme funcionasse no Brasil precisávamos de um italiano que falasse um excelente português, e o Carlo Briani, com sua história pessoal em alguns pontos coincidente com a do personagem, tornou-se uma escolha evidente.
O próprio João Miguel, protagonista absoluto do filme, foi uma escolha delicada: o Nonato quase foi outro até o momento em que encontrei pessoalmente o João e percebi que ele poderia dar ao personagem uma personalidade forte e rica.
Já a escolha do Paulo Miklos foi feita muito cedo. Enquanto ainda escrevia o roteiro, já comecei a pensar no Paulo para o papel do Etcetera, inclusive como uma pequena homenagem ao cinema brasileiro e ao Beto Brant como realizador emblemático da nova geração de cineastas.
10 - No Rio, existem muitos garçons que se tornaram donos de restaurantes. O que te motivou a escrever sobre Raimundo Nonato – ou Alecrim, personagem de João Miguel -, um homem que encontra na gastronomia um meio de inserção social? Como você observa, a gastronomia, no mundo real, é um excelente meio de inserção social. Isso acontece mesmo, e “ESTÔMAGO” parte desse fato para contar a trajetória de nosso herói. Aliás, uma questão levantada pelo filme e que acredito não foi ainda completamente compreendida é a questão do nordestino no sul do país. Raimundo Nonato, no conto do Lusa Silvestre que inspirou o filme, era nordestino porque são nordestinos muitos dos melhores cozinheiros e chefs que trabalham nos restaurantes de São Paulo e Rio. Mas, no filme, a esta razão juntou-se outra: são, sobretudo, nordestinos os homens e mulheres que chegam sem eira nem beira nas metrópoles do sul em busca de emprego e são explorados pelos sulistas. Este olhar crítico do filme em relação à exploração do migrante pobre é evidente: Nonato primeiro é praticamente encarcerado pelo dono de um boteco, onde trabalha em troca de comida e moradia, não tendo sequer direito a salário; mais tarde, vai trabalhar, com bem mais dignidade é verdade, para o dono de um restaurante italiano, cujo caráter brincalhão não esconde, no entanto, o preconceito que o faz referir-se a Nonato às vezes como paraíba, às vezes como cearense, muito embora Nonato afirme, várias vezes, não vir nem de um nem de outro desses estados. E na cela, os outros prisioneiros o tratam da mesma maneira, adicionando ainda um outro tratamento preconceituoso, o de “parmalat”. Estes “preconceitos cruzados” não são o tema do filme, mas estão lá, evidentes, para que se reflita sobre eles. E para que se ria, também, é claro, já que o riso inteligente é a melhor forma de crítica que se conhece.
11 - Você considera o filme uma ode à gastronomia? Certamente, e trata-se de uma ode à “baixa-gastronomia”, à gastronomia de boteco. Desde o início era essa a minha intenção: fazer um filme sobre culinária, mas que fosse diferente dos outros filmes que abordam o tema. Em geral, os filmes gastronômicos falam de “alta” gastronomia. Basta lembrar de “Vatel”, “Como Água para Chocolate”, “Simplesmente Martha”, ou, mais do que todos, “A Festa de Babette”. Mesmo “O Cozinheiro, O Ladrão, Sua Mulher e o Amante” aborda o tema a partir de um restaurante fino. Já em “ESTÔMAGO” os pratos que mostramos são pratos populares, e a preparação deles, precária. Mesmo assim, o filme deixa o público com fome. Mesmo vendo as condições sanitárias terríveis da cozinha do boteco do Zulmiro, o espectador tem vontade de comer o pastel que o Nonato fez ali. Era exatamente isso o que eu queria.
“ESTÔMAGO” é uma declaração de amor à culinária. Seja nas palavras de Giovanni, seja naquelas de Íria ou de Bujiú, a comida é um amor que satisfaz a todos.













