ENTREVISTA de Marcos Jorge
Para a REVISTA DO CINEMA BRASILEIRO
Jornalista Julio Carlos Bezerra
Em Dezembro de 2007
- “Estômago” é uma co-produção com a Itália. Você poderia falar um pouco sobre o processo de captação do longa?
“Estômago” tem uma história produtiva ainda pouco comum para um filme brasileiro.
Do ponto de vista produtivo, dois momentos foram fundamentais para a viabilização econômica do Estômago. Primeiro, a escolha de seu roteiro entre os vencedores do Edital de Produção de Filmes de Baixo Orçamento do Ministério da Cultura. Com uma história como a do Estômago, de um diretor estreante, teria sido muito difícil viabilizá-lo pela captação pura e simples no mercado.
A este ponto, garantida a produção no Brasil, amadureceram os contatos que vínhamos mantendo com produtores italianos desde a concepção do projeto, e a Indiana Production, de Milão, resolveu co-produzir o filme. Através do trabalho intenso da produtora Cláudia da Natividade, conseguimos utilizar os mecanismos do Acordo Bilateral de Co-Produção de Filmes assinado pela Itália e pelo Brasil na década de 70 e que até então nunca tinha sido utilizado plenamente. Estômago, em função disso, não só pode dispor de um orçamento que não teria tido se fosse somente produzido pelo Prêmio do B.O., como, uma vez acabado, apresenta a característica muito interessante de ser ao mesmo tempo brasileiro no Brasil e italiano na Europa (tal binacionalidade é garantida pelo Acordo), tendo acesso facilitado ao mercado europeu de distribuição. De fato, a distribuição do filme na Itália está praticamente fechada.
- Que filme você vê em relação ao que você queria ter feito?
Especialmente em função da co-produção, pudemos concentrar todos os recursos do Edital que vencemos na etapa de produção do filme e tivemos, portanto, total controle, seja de um ponto de vista produtivo que artístico. A finalização foi feita na Itália mas, novamente, nesta fase pudemos contar com a parceria e a confiança de nosso co-produtor, que deixou-nos no controle absoluto do processo. Sendo assim, de um ponto de vista produtivo, fiz o filme que quis, dentro dos limites que tive.
Do ponto de vista artístico posso afirmar a mesma coisa. Tive um bom controle do processo de criação do filme, do roteiro à cópia final. Se você gosta do filme, deve elogiar as muitas pessoas que chamei para participar do projeto e que contribuíram criativamente para que ele acontecesse (roteiristas, atores, produtores, diretor de fotografia, de arte, montador, músico, técnicos de som, etc.). Se você não gosta, o único a criticar sou eu mesmo.
Mas, respondendo mais estritamente sua pergunta: embora veja, como é natural, inúmeros defeitos no Estômago, gosto dele e acho que ele corresponde bastante bem ao filme que queria ter feito. Mas, é claro, já estou focado em meu próximo projeto.
- Você poderia falar um pouco do elenco? Todos estão muito bem e em nenhum momento competem com o filme.
Você não imagina o quanto me dá prazer ouvir elogios ao elenco do Estômago. Sou um diretor que gosta imensamente de trabalhar com os atores e acredito que o fulcro absoluto de toda cena que funciona é o ator. E foi muito bom, logo nas primeiras apresentações do filme no Rio, ler críticas como a do Cléber Eduardo, na Cinética, reconhecendo estas minhas intenções.
O processo de escolha e formação do elenco do Estômago foi lento e trabalhoso. A seleção de cada ator teve uma história e um percurso diferente. Para o personagem da “Íria”, por exemplo, fizemos testes em São Paulo, Rio e Curitiba, testando mais de uma centena de atrizes. Demorei-me em decidir a confiar a uma estreante um papel tão importante, mas a Fabiula Nascimento terminou por me convencer, pela presença, pelo talento e pela absoluta dedicação ao trabalho e à personagem. O nome do Babu Santana surgiu cedo, a partir do excelente trabalho dele no “Quase Dois Irmãos”, da Lúcia Murat, mas ele teve que competir, em testes e entrevistas, com atores extraordinários como o Flávio Bauraqui e o Leandro Firmino da Hora, só para citar dois exemplos. Para o personagem do “Giovanni” inicialmente pensáramos num ator famoso na Itália, o Diego Abantantuono, mas foi ficando claro que para que o filme funcionasse no Brasil precisávamos de um italiano que falasse um excelente português, e o Carlo Briani, com sua história pessoal em alguns pontos coincidente com a do personagem, tornou-se uma escolha evidente. O próprio João Miguel, protagonista absoluto do filme, foi uma escolha delicada: o Nonato quase foi outro até o momento em que encontrei pessoalmente o João e percebi que ele poderia dar ao personagem uma personalidade forte e rica.
Escolher bem o elenco de um filme é meio caminho andado para o sucesso da fita, mas resta a outra metade do caminho a ser trilhada. E esta, para mim, é a metade mais prazerosa. O período de ensaio de um filme é para mim um momento mágico, delicioso. No caso do “Estômago” ensaiei pessoalmente todos os atores durante um mês inteiro, com a decisiva colaboração do João Miguel que, por estar em todas as cenas do filme, estava obviamente presente em todos os ensaios. Foi um período muito intenso, o momento em que realmente o filme tomou forma.
Os primeiros ensaios e improvisações aconteceram num teatro, mas a partir de determinado ponto ensaiamos nas próprias locações onde rodaríamos o filme, e a movimentação criada pelos atores foi essencial na determinação da linguagem cinematográfica que adotaríamos. Resumindo, quando se tratou de filmar, estávamos todos de acordo sobre o filme que estávamos fazendo.
- “Estômago” trabalha com certos estereótipos e brinca com as expectativas criadas a partir dessas caricaturas. Embora o filme não tenha a pretensão de um tratado sociológico, alguns deverão dizer que se ri, por exemplo, do estereótipo do imigrante nordestino. Como é isso?
Desde o início do projeto do Estômago tive consciência do risco que esta história apresentava de se cair nos clichês vigentes sobre os ambientes e os personagens envolvidos: os presos oprimidos, a prostituta deprimida, o italiano melodramático, a comida pasteurizada, etc. Ora, para poder fugir disso, desde o começo imaginei os personagens como pessoas multifacetadas, e os ambientes como ambientes realistas. Assim como a comida mostrada no filme é apetitosa mesmo sendo feita em condições higiênicas tremendas, os personagens do filme também tem qualidades e defeitos evidentes. E gostamos deles apesar disso, ou justamente por isso. Acho que funcionou.
Igualmente, para a questão do migrante nordestino, sempre estive ciente de que poderia receber críticas dos que não se aprofundassem na análise do filme. Nonato, no conto do Lusa Silvestre que inspirou o filme, era nordestino por uma razão prática: muitos dos melhores cozinheiros e chefs que trabalham nos restaurantes de São Paulo e Rio vêm daquela região. No filme, a esta razão juntou-se outra: são sobretudo nordestinos os homens e mulheres que chegam sem eira nem beira nas metrópoles do sul em busca de emprego e são explorados pelos sulistas. Este olhar crítico do filme em relação à exploração do migrante pobre é evidente: Nonato primeiro é praticamente encarcerado pelo dono de um boteco, onde trabalha em troca de comida e moradia, não tendo sequer direito a salário; mais tarde, vai trabalhar, com bem mais dignidade é verdade, para o dono de um restaurante italiano, cujo caráter brincalhão não esconde, no entanto, o preconceito que o faz referir-se a Nonato às vezes como paraíba, às vezes como cearense, muito embora Nonato afirme, várias vezes, não vir nem de um nem de outro desses estados. E na cela, os outros prisioneiros o tratam da mesma maneira, adicionando ainda um outro tratamento preconceituoso, o de “parmalat”. Estes “preconceitos cruzados” não são o tema do filme, mas estão lá, evidentes, para que se reflita sobre eles. E para que se ria, também. Alguns só riem.
Aliás, de qualquer maneira, Estômago é um filme politicamente incorreto, um filme que convida o espectador a rir de tudo: do nordestino, do bandido, da prostituta, do sulista dono do boteco, do italiano metido a professor, da exploração dos mais fracos pelos um pouco menos fracos, das frases feitas da gastronomia e da enologia, dos preconceitos que intermediam a relação entre as pessoas, e sobretudo, convida o espectador a rir de si mesmo.
- “Estômago” é recheado de citações a Fellini e lembra as comédias italianas no ritmo, na trilha e nos personagens. Você estudou cinema na Itália, não é?
Sendo Estômago o meu primeiro longa-metragem, busquei colocar nele uma série de pequenas homenagens ao cinema que amo e que me inspira. Efetivamente, estudei cinema na Itália, e naquele país vivi praticamente toda a década de 90. Na escola, tive o privilégio de conhecer pessoalmente alguns dos grandes nomes do cinema italiano (Sergio Leone, Marcello Mastroianni, Nino Baragli, Giuseppe Rottuno, Vittorio Storaro, entre outros), mas sobretudo tive acesso ilimitado à Cinemateca Italiana, e nos anos de minha formação pude ver na tela grande uma boa parte do cinema italiano e europeu, e isso quando o acesso a estes filmes era bem mais difícil do que é hoje. Ao fazer o meu primeiro longa, foi natural inspirar-me naquilo que conheço bem. É verdade, portanto (e foi um desejo meu que isto acontecesse), que meu filme tem momentos que parecem saídos de um filme de Fellini (mais do que citações explícitas ao grande maestro, o que procurei foi revisitar em meu filme uma certa atmosfera típica de sua obra), mas a única citação explícita de filme italiano contida em Estômago é de um outro diretor: numa cena que rodei no corredor de uma pensão busquei fazer vir à mente do espectador uma cena de “Quando Explode a Vingança”, de Sergio Leone (aliás, não deixem de ler o brilhante texto de Ruy Gardnier na Contracampo sobre este esplêndido filme). Mas em Estômago não cito somente o cinema italiano. Num plano-sequência elaborado, perto do final, homenageio explicitamente um filme que me influenciou muito: “O Cozinheiro, O Ladrão, Sua Mulher e O Amante”, do Peter Greenaway. E a escolha do Paulo Miklos para o personagem do Etcétera foi também uma pequena homenagem ao cinema brasileiro da retomada, especificamente a “O Invasor”, do Beto Brant.
- O filme também explora bastante o uso da música. Você poderia falar um pouco da trilha e de seu uso?
Acredito que o processo de criação da trilha sonora de Estômago foi o melhor possível. Uma vez acertada a produção da trilha pela CAM - produtora musical com sede em Roma que fez grande parte das trilhas do cinema italiano, tendo em seu catálogo nomes como Ennio Morricone, Nino Rota, Nicola Piovani, entre outros -, no âmbito da co-produção, tornou-se viável que a trilha fosse composta e dirigida por Giovanni Venosta, meu amigo de longa data, autor de colunas sonoras de vários filmes importantes, entre eles “Pão e Tulipas” e “Queimando ao Vento”, ambos de Silvio Soldini. Giovanni, além de ser um dos mais brilhantes compositores que conheci, é também um dos maiores cinéfilos que já encontrei: de fato, conhecemo-nos numa fila de cinema. Em dezembro passado, logo depois de encerradas as filmagens, viajei até Milão e mostrei o material bruto a Giovanni. Ali decidimos o básico sobre a trilha: quais instrumentos seriam solistas, como se comportaria a percussão, qual seria o registro geral da música. Foi ali, inclusive, que surgiu a idéia de usar um assobio como leitmotiv para determinadas cenas. De volta ao Brasil passei a montar o filme e de quando em quando enviava para o Giovanni, via e-mail, uma cena para que ele a musicasse. Ele compunha, ia ao estúdio e gravava uma trilha teste, totalmente eletrônica, simulando os instrumentos acústicos que mais tarde gravaria. Na maior parte das vezes tive a oportunidade de rever a cena em função da música, de maneira que a montagem e a trilha foram nascendo juntas e entrelaçadas. Um modo de trabalhar que considero extremamente estimulante e criativo seja para o diretor, seja para o músico. Uma vez fechada a montagem, Giovanni dirigiu os músicos na gravação e pude acompanhar pessoalmente a mixagem, interferindo diretamente nesta fase.
Do ponto de vista artístico, a música do Estômago tem pegada forte, caráter determinado (reelaborando de maneira contemporânea alguns temas e estruturas típicas das colunas sonoras dos filmes europeus do anos 70), e é componente fundamental na criação de algumas das melhores atmosferas presentes no filme. Em alguns pontos, a música é voluntariamente reiterativa, relacionando momentos distantes no tempo, mas nunca se repete (os temas, quando se reapresentam, estão sempre arranjados de maneira diferente, e freqüentemente são também interpretados por instrumentos diferentes).
Gosto muito da música do Estômago e não só eu: a trilha será lançada brevemente em cd na Itália e uma companhia americana já negocia os direitos internacionais visando o lançamento do cd no mercado americano.
- É curioso o humor buscado pelo filme. A graça não está tanto no que é dito pelo ator, mas na maneira pela qual ele o diz...
Mas não será isso que você indica uma característica comum a todo tipo de humor? A mesma frase, dita de uma maneira ou de outra, pode fazer rir ou não. O que acontece com o Estômago, acredito, é que o texto do filme não busca, especificamente, fazer rir o espectador. O objetivo dos diálogos é fazer andar a história e narrar a relação entre os personagens. Eventualmente (e felizmente isto acontece muitas vezes durante o filme), o modo de ser dos personagens, somado ao que dizem, geram efeitos muito cômicos. Mas o humor que buscamos, inclusive na representação dos atores, foi um humor de sutilezas. Por exemplo, há uma cena em que Giovanni filosofa sobre a arte culinária e compara o trabalho de criação na cozinha ao trabalho do pintor, citando como modelo a obra de Picasso. Nonato reage com uma singela pergunta: “Picasso?”, e pelo olhar dele compreendemos o que está pensando. O público ri, inevitavemente, sem que precisássemos explicitar nada. Em outro momento, que gosto muito, estão todos na cela, comendo vorazmente a bóia da prisão, e Nonato afirma ter trabalhado como cozinheiro antes de ser preso; todos param de comer e a câmera passeia pelos homens paralisados: o público ri, e é o movimento de câmera que cria a gag.
Sem falsa modéstia, tenho um orgulho particular pela maneira como fazemos o público rir no decorrer do filme. Acredito que o riso, sobretudo aquele reflexivo, que nos convida a rir de nossas próprias mazelas, é a forma mais potente de criticar e iluminar a condição humana. É neste sentido que busquei colocar Estômago como modesto sucessor da rica tradição da comédia italiana.
- Neste sentido, “Estômago” é extremamente sedutor em sua relação com o espectador. É um filme de enorme vocação popular. O problema é que o cinema no Brasil não parece ser mais popular. Isto não te preocupa?
Tomara que a performance do Estômago nas telas corresponda a esta sua afirmação. Até agora, efetivamente, o filme pareceu mesmo agradar ao púbico. O que me deixa muitíssimo contente, pois faço cinema para comunicar-me com o público, fazê-lo emocionar-se, apaixonar-se por uma história e, sobretudo, fazê-lo refletir sobre a condição humana. E desejo fazê-lo sem subestimar sua inteligência e sensibilidade. Mas, também, sem superestimar sua paciência...
Quanto ao momento que estamos vivendo, não tenho a impressão de que o “cinema” tenha deixado de ser popular em nosso país, mas de que a “sala de cinema” tenha efetivamente deixado de sê-lo. Basta dar uma volta em um bairro popular ou favela de qualquer cidade média brasileira para perceber, pelo número de locadoras de dvds que ali se encontram, que o cinema nunca esteve tão em alta em nosso país. Paralelamente, com o preço da entrada de cinema a R$12,00, não há como afirmar que o cinema está ao alcance de todos... É claro que, sabendo que a performance econômica de um filme infelizmente é ainda bastante dependente de sua performance nos cinemas, estou bastante preocupado com a distribuição do Estômago, mas confio em meus parceiros.
- É interessante como o filme mostra o quanto a arte, no caso gastronômica, é um exercício de poder. A história de Nonato não seria a história de alguém que é corrompido por seu próprio talento?
A sua afirmação vai na veia do argumento central do filme. No cartaz do Estômago o filme é definido como “uma fábula nada infantil sobre poder, sexo e gastronomia”. Trata-se de uma frase de venda, como convém a um produto cinematográfico, mas que define bastante bem o filme. E uma das idéias do filme efetivamente é que “a arte (e num sentido mais amplo o conhecimento), assim como o sexo, é um instrumento de poder”. Até aqui estamos de acordo. Mas o que corrompe Nonato não é seu talento, mas o exercício de poder que seu talento lhe procura. O talento de Nonato para a gastronomia é exatamente o que o leva ao poder, mas são as delícias do poder que o fazem tornar-se aquilo que se torna ao final do filme. Idéias não novas, é verdade, mas sempre atuais...
- Gostaria que você falasse um pouco sobre a decisão de se dividir a narrativa em dois segmentos temporais.
Trata-se de uma idéia que surgiu logo no início da criação do filme, antes mesmo que iniciássemos a escrever o roteiro. Explico. Há quatro anos atrás, respondendo a um convite para a estréia de meu curta “Infinitamente Maio” em São Paulo, o escritor Lusa Silvestre mandou-me três contos inéditos, todos centrados no argumento comida. Um deles chamou-me logo a atenção, e narrava a história de um homem que aumentava seu prestígio numa prisão cozinhando para seus companheiros de cela. Gostei muito do conto e sugeri ao Lusa que o adaptássemos para filme. Mas como o conto era curto e insuficiente para embasar um longa, era necessário inventar mais coisas. E assim fomos criando toda uma história para o protagonista “antes” de ir para a cadeia. E ainda em fase de “escaleta”, ou seja, antes de escrever o roteiro propriamente dito, percebemos que poderíamos estruturar o filme de maneira muito interessante e rica de nuances se misturássemos o tempo de “antes” com o tempo “da cadeia”, fazendo com que as duas fases da história (que eram praticamente duas histórias diferentes, mas com o mesmo personagem) precipitassem juntas em direção a um granfinale.
Mas sobre esta divisão temporal na narrativa de Estômago há algo mais a dizer. Ao contrário de alguns outros filmes em que este procedimento é utilizado como um recurso narrativo por assim dizer “acessório”, em Estômago esta estrutura é absolutamente fundamental para a existência mesma da história. O percurso existencial de Nonato perderia muito de sua força e mistério se fosse narrado de maneira linear. Se ao vermos Nonato na prisão já soubéssemos qual foi o seu crime, nossa maneira de olhar para ele e de entender sua psicologia seria completamente diferente, e muito mais pobre. E não é só pelo que “escondemos” do espectador até quase o final do filme que a estrutura nos ajuda, mas sobretudo porque, no decorrer da narração, justamente pela sobreposição de tempos narrativos, ela nos permite realizar elipses temporais radicais sem que o espectador perca o fio da meada.
- O registro do filme é curioso: não se esconde a dimensão de representação do filme, mas chama pouca atenção para suas construções dramáticas. Como é isso?
Acredito que esta sensação, sentida por diversas pessoas, deriva do uso que fizemos de dois registros narrativos diversos (aliás, tudo é duplo no filme: dois tempos da história, dois ambientes diferentes – fora e dentro da prisão -, até mesmo duas seqüências de créditos iniciais tem o filme). De um lado, há o registro realístico do que acontece no percurso existencial do protagonista, ou seja, aquilo que ele vive. De outro, há o registro, em tom quase fabuloso, das reflexões de Nonato, apresentadas sempre em “voice-over”: aquilo que ele pensa.
Cabe frisar que tive um cuidado extremo em relação ao registro realístico das cenas vividas por Nonato. No caso da prisão, por exemplo, não só filmamos TODAS as cenas numa prisão verdadeira e que acabava de ser desativada (a Prisão Provisória do Ahú, em Curitiba, velha de 104 anos), utilizando somente objetos autênticos deixados pelos presidiários que acabavam de ser removidos, como tivemos como “consultor de comportamento carcerário” o escritor Luis Alberto Mendes, que passou mais de trinta anos preso. No caso das cozinhas, seja as cenas do boteco que as do restaurante foram filmadas em cozinhas verdadeiras e em funcionamento, e tivemos uma chef como consultora do comportamento dos atores naqueles ambientes.
Acho que esta mis-en-scene realística contraposta ao tom fabulístico (embora amoral) de alguns momentos do filme (acentuados pela música) é que produzem o estranhamento que você percebeu. Estranhamento, aliás, que foi buscado como nota estilística.
- Como você avaliaria a participação do filme no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo?
O Festival do Rio foi, para todos nós que fizemos o Estômago, absolutamente extraordinário. O Festival tem uma estrutura muito inteligente e apesar de apresentar centenas de filmes estrangeiros, entre eles os filmes mais importantes de Cannes e de Veneza, prestigia o filme brasileiro com uma mostra competitiva muito organizada, a Première Brasil, que acaba por constituir o centro do evento. Ainda antes da estréia do filme (première mundial, diga-se de passagem) percebemos que o boca-a-boca já estava funcionando para criar expectativa em relação ao Estômago. Podia-se claramente perceber que o filme era aguardado. E a partir do momento em que o filme foi para a tela foi só alegria. Dos aplausos do fim da sessão de gala até a noite de premiação, posso afirmar com certeza que o filme aconteceu: a crítica elogiou, o público respondeu entusiasmado e os compradores internacionais se fizeram numerosos. E o que dizer do resultado: dos seis “redentores”, quatro foram dados ao Estômago, entre eles o de Melhor Filme pelo Público e Melhor Diretor. Dias depois, uma matéria na revista inglesa Screen Daily elogiando o filme provocou uma enxurrada de e-mails estrangeiros em minha caixa postal. E o Festival repercute ainda.
Na Mostra de São Paulo, o público não reagiu diferente: todas as três sessões do filme, apesar de colocadas em horários bastante difíceis (uma à meia-noite e outras duas nas tardes de segunda-feira), tiveram seus ingressos esgotados.













