Estômago english
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Entrevista a Elaine Guerini
Jornal Valor Econômico
Fevereiro 2008


1) Como você vê a conexão culinária e cinema que será abordada no evento em Berlim?
Em geral, vejo muitas semelhanças entre o ato de cozinhar e fazer cinema. O trabalho do diretor cinematográfico assemelha-se em muitos pontos com o do chef: ambos selecionam e misturam elementos e, com paciência e profissionalismo, fazem-nos virar comunicação, alimento e arte. Não por acaso um de meus personagens declara, logo no início de uma cena: "cozinhar é uma arte". Muito embora não seja exatamente disso que trate o Kulinarisches Kino de Berlim, esta visão está implícita na formulação desta seção do Festival. Não por acaso o evento se traduz na projeção do filme, seguida de uma pequena palestra do diretor e do produtor, e completada por um jantar em que um chef realiza um cardápio inspirado no filme.

2) Quais os filmes (se houve algum, claro) que mais o inspiraram na concepção de "Estômago"?
Sendo Estômago o meu primeiro longa-metragem, busquei colocar nele uma série de pequenas homenagens ao cinema que amo e que me inspira. Como estudei cinema na Itália, e naquele país vivi praticamente toda a década de 90, fui muito influenciado pelo cinema italiano, especialmente pelos filmes de Federico Fellini. É natural, portanto, (e foi um desejo meu que isto acontecesse), que meu filme tenha momentos que parecem saídos de um filme de Fellini (mais do que citações ao grande maestro, o que procurei foi revisitar em meu filme uma certa atmosfera típica de sua obra), mas a única citação explícita contida em Estômago é de um outro diretor italiano: numa cena que rodei no corredor de uma pensão busquei fazer vir à mente do espectador uma cena de “Quando Explode a Vingança”, de Sergio Leone. Mas em Estômago não cito somente o cinema italiano. Num plano-sequência elaborado, perto do final, homenageio um filme que me influenciou muito: “O Cozinheiro, O Ladrão, Sua Mulher e O Amante”, do Peter Greenaway. E a escolha do Paulo Miklos para o personagem do Etcétera foi também uma pequena homenagem ao cinema brasileiro da retomada, especificamente a “O Invasor”, do Beto Brant.

3) Como nasceu a idéia de "Estômago''? Logo de início havia a intenção de abordar esse ponto fraco do ser humano, que é ser fisgado pelo estômago?
Há quatro anos atrás, respondendo a um convite para a estréia de meu curta “Infinitamente Maio” em São Paulo, o escritor Lusa Silvestre mandou-me três contos inéditos, todos centrados no argumento comida. Um deles chamou-me logo a atenção, e narrava a história de um homem que aumentava seu prestígio numa prisão cozinhando para seus companheiros de cela. Gostei muito do conto e sugeri ao Lusa que o adaptássemos para filme. Mas como o conto era curto e insuficiente para embasar um longa, era necessário inventar mais coisas. E assim fomos criando toda uma história para o protagonista “antes” de ir para a cadeia. E ainda em fase de “escaleta”, ou seja, antes de escrever o roteiro propriamente dito, percebemos que poderíamos estruturar o filme de maneira muito interessante e rica de nuances se misturássemos o tempo de “antes” com o tempo “da cadeia”, fazendo com que as duas fases da história (que eram praticamente duas histórias diferentes, mas com o mesmo personagem) precipitassem juntas em direção a um granfinale. O conto que deu origem ao filme chama-se "Presos pelo Estômago", ou seja, já embutia a abordagem da ascensão social através do talento na cozinha e do poder exercido através da capacidade de satisfação à mesa. Obviamente, ao escrever o roteiro, desenvolvemos ainda mais esta idéia.

4) Na sua opinião, qual a particularidade do brasileiro, nessa relação com a comida?
O brasileiro, especialmente por ser latino, têm uma relação muito forte com a comida, mas acredito que temos ainda um longo caminho pela frente no desenvolvimento de nossa relação com a culinária. Estamos ainda engatinhando na criação de uma cultura gastronômica nacional e só muito recentemente passamos a valorizar mais a qualidade do que comemos do que a quantidade. O cinema brasileiro, por exemplo, só muito marginalmente tratou a comida como um tema relevante. Acho que Estômago é o primeiro filme brasileiro "centrado" na cozinha.

5) Qual será a sua participação em Berlim?
O Festival de Berlim é um dos dois festivais mais importantes do mundo (o outro é Cannes), e portanto é muito importante na estratégia de distribuição internacional do filme. Em Berlim teremos a oportunidade de convidarmos diversos distribuidores para assistirem ao filme, e o convite poderá ser simpaticamente estendido ao jantar que se seguirá à projeção. A expectativa de nosso representante (que têm sua base na França) é que o filme seja vendido para, no mínimo, 30 países. Do meu ponto de vista, em Berlim começarei a ver como um público internacional reage ao meu trabalho, o que me deixa cheio de expectativa e curiosidade. Depois da projeção terei a ocasião de falar um pouco do filme, mas aproveitarei mais para ouvir o que meus espectadores tenham a dizer.