João Miguel
ENTREVISTA
- Como foi que você recebeu o convite para interpretar o Raimundo Nonato? O que achou do personagem?
Eu me interessei muito pela coluna vertebral do roteiro – e, principalmente, por essa questão fabular, de um personagem imigrante que por necessidade se aprisiona na cidade grande. A maneira que ele tem de ir ganhando poder é através do seu talento na cozinha, o que acaba virando uma coisa terrível também – ele é o colonizado que acaba absorvendo as normas do patrão de uma maneira quase paternalista e acaba não tendo voz própria. Ou melhor, essa voz vem completamente destrambelhada, o que é uma metáfora que diz bastante respeito à nossa cultura.
- O filme se passa em dois ambientes bem marcados: a cadeia e a cozinha. Como foi a preparação para viver em cada um deles?
Para a prisão a gente teve a orientação do Luiz Mendes Jr., um escritor que ficou preso durante muitos anos. Já na parte da cozinha, eu fiz alguns cursos. Estagiei num restaurante italiano e num boteco, que foi o mesmo onde a gente filmou. Foi importante entender como era a atmosfera de um restaurante, de uma cozinha industrial.
- O que é que você trouxe da sua bagagem para o Nonato e o que você foi acrescentando ao longo do filme?
Um dia, no hotel, eu fiz uma historinha na minha cabeça, de quem seria o Nonato antes do filme: um menino do interior, criado com o irmão por sua avó, numa cidade violenta, um fim de mundo onde as pessoas são oprimidas e não têm muita saída. Além disso, ele era rodeado por um universo de facas, de lâminas de corte. Sua mãe não morava com ele – ela era uma prostituta, mas ele não sabia. Era uma mulher de vermelho que chegava de vez em quando, com um perfume muito forte, e que levava alguns presentes para ele. Foi para fazer um link com a Íria – acho que nas fábulas e na comédia você tem que ir para o arquétipo. O roteiro sugere essa fantasia.
- Como foi trabalhar com a Fabiula e o Babu, que são atores de escolas completamente diferentes? E o que essa diversidade no elenco acrescentou ao filme?
Foi muito legal o processo com os dois – aliás, isso foi uma das razões para que eu fizesse o filme. Eu tenho muito essa sede de conhecer pessoas, que é algo que o cinema propicia. A Fabiula é excelente atriz que veio do teatro e que estava descobrindo o cinema. Tinha muito essa coisa de um ajudar o outro. Já o Babu é um cabra que veio do Nós do Morro, um grupo que tem uma marca, uma postura... A gente se deu muito bem, ele é um ator interessantíssimo, um ator de atitude em cena. Porque não basta ser um intérprete, você tem que dar muito de si, agir em todos os sentidos.
- E as lições de cozinha, continuam a ser bem aproveitadas por você?
Não, eu continuo degustando, sempre fui um bom degustador (risos). Prefiro comer, mas acho incrível a arte da cozinha. Eu venho de família italiana e sou baiano, portanto venho com essa cultura da comida. E na verdade, o fato de eu ter aceitado o roteiro tem a ver com isso um pouco também, de saber que comida é algo muito forte no dia-a-dia da gente.























